7 de abr de 2012

Tombuctu: a jóia africana que está em risco de desaparecer

Público (sábado, 07/04/2012)

O património de Tombuctu, no Mali, pode estar em risco, depois da ocupação pelos rebeldes. UNESCO lançou um alerta e os especialistas estão apreensivos, embora digam que a população sabe o valor do que ali tem

Em Tombuctu, no Norte do Mali, o mito impera, como sempre aconteceu. Sem se saber bem como nem porquê, a História transformou-a numa cidade especial. De uma pequena povoação perdida no deserto do Sara, Tombuctu tornou-se a jóia africana, a cidade do ouro e a capital intelectual e espiritual de África. Um oásis no Sara, que ao longo dos séculos tem vindo a despertar a atenção do mundo. Mas entre histórias, mitos e mistérios, o que se vive hoje na cidade é real. Ocupada há cerca de uma semana pelos rebeldes tuaregues e por islamitas infiltrados, o medo e a incerteza apoderaram-se de Tombuctu. Em tempos de conflito, é preciso salvar a História, e quem a conta é o seu património, agora ameaçado.




Os confrontos no Mali já começaram há cerca de duas semanas, mas foi com a luta a chegar a Tombuctu que os receios cresceram e, consequentemente, aumentou a pressão da comunidade internacional. Tombuctu (também chamada de Timbuktu) é cidade Património Mundial da UNESCO desde 1988 e tem por isso de ser protegida. Foi esta a mensagem que a directora-geral da UNESCO, Irina Bokova, passou na segunda-feira e voltou a repetir na quinta, alertando que, acima de qualquer guerra de interesses, é urgente que “as maravilhas arquitectónicas em terra de Tombuctu” sejam preservadas e não sofram quaisquer danos por causa dos conflitos no país. Na memória ainda está o episódio de 2001, quando os taliban bombardearam no Afeganistão um dos maiores complexos budistas, destruindo os budas de Bamiyan.

“Não acredito que os rebeldes venham a destruir o património de Tombuctu. Como muçulmanos que são, não têm motivos nem nada a ganhar com a destruição daqueles monumentos e dos manuscritos islâmicos”, disse ao PÚBLICO Timothy Insoll, arqueólogo e professor na Universidade de Manchester, que por várias ocasiões trabalhou no local, não escamoteando no entanto que o património pode acabar por ser atingido se os conflitos continuarem. Mas que património e que história se escondem nesta cidade africana, descoberta quase por acaso no século XI por um grupo de tuaregues que ao atravessar o deserto procurava apenas um bom pasto para os seus animais?

Capital espiritual

Embora existam testemunhos históricos da cidade desde o século V, foi depois de estes tuaregues a terem fundado que Tombuctu entrou no mapa africano, assegurando desde logo uma posição estratégica nas trocas comerciais. Perto do rio Níger e às portas do deserto do Sara, Tombuctu era o ponto de encontro perfeito para os negociantes do Norte e do Sul. Palco de grandes negócios, por onde o ouro sempre passou, foi assim que nasceu a fama de Tombuctu como uma terra rica, atraindo cada vez mais africanos, que acabaram por se fixar na cidade, contribuindo assim para o seu crescimento intelectual e religioso. Nos séculos XV e XVI era já considerada a capital espiritual e um centro de propagação do islão em África. Diz um ditado dessa época que “o sal vem do Norte, o ouro do Sul, mas a palavra de Deus e os seus tesouros só se encontram em Tombuctu”. A fama da riqueza chegou ao Ocidente, mas só no século XIX, quando surgiu o primeiro relato da cidade feito por um europeu, é que na Europa se desmistificou a ideia que se tinha de Tombuctu. Esta tornara-se uma cidade culta, mas não era rica em ouro.

“Naquela altura, a cidade tinha a maior universidade da África Subsariana com mais de 25 mil estudantes”, contou ao PÚBLICO, por email, o maliano Lassana Cissé, do comité científico do ICOMOS (Conselho Internacional dos Monumentos e dos Sítios) e responsável pelo património mundial no Mali, explicando que assim se reuniu ao longo dos séculos “uma rara fonte escrita para o conhecimento de África” em todas as áreas. Ao mesmo tempo e como consequência foram construídos templos de culto, entre os quais se destacam ainda hoje as três grandes mesquitas de Djingareyber, Sankoré e Sidi Yahia, os 16 cemitérios e os mausoléus, assim como as bibliotecas que guardam milhares de manuscritos, alguns datados ainda da era pré-islâmica.

A arquitecta Maria Fernandes, especialista do ICOMOS Portugal, destaca a construção típica dos monumentos, feita de adobe, à base de lama e madeira, por isso frágil e requerendo cuidados redobrados. “Estes monumentos têm um valor histórico importantíssimo e não se podem perder”, afirmou a especialista, explicando que as condições climáticas e as areias do deserto já por si são uma causa de desgaste. “Sendo palco de um conflito, aumentam os riscos de destruição”, afirma.

Responsáveis incontactáveis

Até agora ainda não existem registos de quaisquer danos, mas também pouco se sabe sobre o que se passa na cidade. Ao PÚBLICO, o gabinete da UNESCO no Mali, que fica na capital Bamako, disse não ter ainda informações sobre a situação, revelando não conseguir nem contactar os responsáveis pelo património em Tombuctu.

“A situação é complicada, as pessoas não se sentem seguras, fala-se em pilhagens e violência”, contou ao telefone a italiana Elisa Roth, a trabalhar em Bamako numa ONG, garantindo que a última coisa em que as pessoas pensam neste momento é no património. “Existem outras preocupações mais importantes, como conseguir comida.”

Situação que preocupa Lassana Cissé. “Existem de facto razões para nos preocuparmos. Num momento de guerra, a destruição do património edificado e do enorme tesouro que são os manuscritos é muito possível”, assegura, acrescentando que tem estado em contacto com a UNESCO, que segundo Manuela Galhardo, secretária executiva da Comissão Nacional da organização, já accionou todos os meios. “A Convenção de 1972 sobre o património mundial por toda a visibilidade e credibilidade que tem é já um instrumento poderoso da UNESCO”, explicou ao PÚBLICO a responsável, lembrando que “todos os malianos, que estão a combater, seja de que lado for, estão sob o olhar da comunidade internacional e por isso se destruírem alguma coisa ficarão com esse peso e responsabilidade”.

Mas Maurício Abreu, fotógrafo que em 2006 esteve em Tombuctu, acredita que nada de grave possa acontecer. “As pessoas têm consciência da riqueza daquele património e sabem como preservá-lo”, disse, contando que quando esteve na cidade todos os monumentos estavam muito bem preservados. “Os próprios manuscritos têm passado de geração em geração, sempre com todos os cuidados, porque os malianos sabem a importância que aqueles documentos têm para a História.” Teoria também defendida pelo professor de Manchester, que destaca ainda a importância de todo o património para o turismo. “Embora não existam assim tantos turistas, as pessoas de Tombuctu estão conscientes do impacto financeiro”, acrescenta, defendendo que até que a situação se resolva tudo dependerá da população local. “Com o colapso do Governo, quem mais poderá manter e guardar os monumentos?”, questiona Timothy Insoll, esperando que seja qual for o desfecho dos acontecimentos a jóia africana não desapareça.

7 de ago de 2011

Para conhecer Moçambique



O Guia Turístico de Moçambique traz muitas informações relevantes aos que pretendem conhecer o país. 
São informações gerais e breves sobre a cultura, o clima, a fauna e a flora do país, mas também sobre questões mais práticas como o visto, a vacina obrigatória contra a febre-amarela, a autorização para conduzir e, para os menos desavisados, lembram que lá a condução é feita pela esquerda. 

Para informações específicas sobre qualquer uma das dez províncias em que se divide Moçambique, basta navegar pelo menu lateral do site.

Mas a proposta deste post, para além de indicar o Guia, é transcrever aqui o pequeno resumo que traz o site da História de Moçambique:

Os povos primitivos de Moçambique foram os Bosquímanes. Entre os anos 200 a 300 DC, ocorreram as grandes migrações de povos Bantu, oriundos da região dos Grandes Lagos a Norte que empurraram os povos locais para regiões mais pobres a Sul.

Nos finais do séc. VI, surgiram nas zonas costeiras os primeiros entrepostos comerciais patrocinados pelos Swahilárabes que procuravam essencialmente a troca de artigos vários pelo ouro, ferro e cobre vindos do interior.
No séc. XV, inicia-se a penetração portuguesa com a chegada de Pêro da Covilhã às costas moçambicanas e o desembarque de Vasco da Gama na Ilha de Moçambique.

Desde 1502 até meados do séc. XVIII, os interesses portugueses em Moçambique estavam sob a administração da Índia Portuguesa.
De início, os portugueses criaram “feitorias” com objectivos meramente comerciais, a que se seguiu a fixação no litoral, onde construíram, em 1505, a fortaleza de Sofala e, em 1507, a fortaleza na Ilha de Moçambique. Só alguns anos mais tarde, na tentativa de dominarem as zonas produtoras de ouro, se aventuraram para o interior onde estabeleceram novas feitorias. Às feitorias, sucederam-se nos finais do séc. XVII os “ prazos” no Vale do Zambeze, uma espécie de feudos doados ou conquistados e que constituíram o primeiro estágio da colonização portuguesa.Com a extinção dos “prazos” em 1832, por decreto régio, e com a emergência dos estados militares, iniciou-se o comércio de escravos que se manteve mesmo após a abolição da escravatura nas Colónias, em 1869. A partilha de África decidida na Conferência de Berlim em 1884/1885 obrigava os portugueses a uma ocupação efectiva de todo o território limitado pelas fronteiras reconhecidas naquela Conferência.Perante a incapacidade financeira e militar para tornar efectiva aquela ocupação, Portugal cedeu os seus direitos de gerir grande parte de Moçambique a companhias magestáticas que até ao final dos anos 30 do séc. XX passaram a explorar os recursos agrícolas e a mão-de-obra do País. No entanto, a ocupação colonial nunca foi pacífica, tendo-se verificado até ao início do Séc. XX forte resistência por parte de vários chefes tribais como Mawewe, Ngungunhana, Komala e outros.

À semelhança do que aconteceu noutras colónias portuguesas, também Moçambique se levantou contra a ocupação colonial portuguesa, iniciando a 25 de Setembro de 1964 a luta armada conduzida pela FRELIMO Frente de Libertação de Moçambique organização que aglutinou os 3 movimentos criados no exílio então existentes. Durante a luta pela libertação, lideraram o Movimento, primeiro, Eduardo Chivambo Mondlane e, após a sua morte a 3 de Fevereiro de 1969, Samora Moisés Machel que assumiu a Presidência da República a 25 de Junho de 1975.

A partir de 1977, a RENAMO - Resistência Nacional de Moçambique, iniciou uma guerra civil que só terminou em 1992 com a assinatura do acordo de paz entre os dois Movimentos. Em 1994 tiveram lugar as primeiras eleições ganhas pelo Presidente Joaquim Alberto Chissano que tinha sucedido a Samora Machel na Direcção da FRELIMO e na Presidência da República após a morte deste num acidente de aviação na vizinha Africa do Sul. Presentemente Moçambique é um País democrático, com a realização de eleições livres nos prazos previstos na Constituição, tendo as últimas ocorridas sem qualquer incidente de relevo em Dezembro de 2004 em que foi eleito Presidente da República Armando Emílio Guebuza, também da Frelimo.

13 de jun de 2011

Cemitério de escravos em Portugal (II)

Os escravos negros circularam pelo continente europeu, juntamente com escravos "mouros" (berberes do norte da África), árabes e da própria Europa. Mas foi em 1444 que, justamente em Lagos, desembarcou o primeiro carregamento de escravos trazido pelas caravelas portuguesas, dando início assim ao moderno tráfico de escravos que iria, nos séculos seguintes, dominar o Atlântico. A partir de então, e até o século XVII, a cidade foi um importante ponto de desembarque do tráfico.

A famosa Crônica da Guiné de Gomes Eanes Zurara, principal documento escrito da chegada desses primeiros escravos a Portugal em 1444, deixa-nos um testemunho do impacto daquele momento; tanto para os africanos desembarcados como para os portugueses que assistiram à divisão feita em praça pública das "peças" trazidas da África.

No dia 08 de agosta daquele ano, muitos campesinos da região do Algarve somaram-se aos inúmeros curiosos de Lagos para ver desembarcarem e repartirem aqueles homens de "razoada brancura", outros "menos brancos" e outros "tão negros como Etiópios". No total eram aproximadamente 230 escravos que "tinham as caras baixas e os rostos lavados com lágrimas, olhando uns contra os outros; outros estavam gemendo mui dolorosamente, esguardando a altura dos céus, firmando os olhos em eles, bradando altamente como se pedissem socorro ao Pai da Natureza; outros feriam seu rosto com suas palmas, lançando-se estendidos em meio do chão; outros faziam suas lamentações em maneira de canto, segundo o costume da sua terra, aos quais (posto que as palavras da linguagem aos nossos pudesse ser entendida) bem correspondiam ao grau de sua tristeza."

Zurara ainda descreve como separavam "os filhos dos pais; e as mulheres, dos maridos; e os irmãos, uns dos outros. A amigos nem a parentes, não se guardava nenhuma lei; somente, cada um caía onde a sorte o levava."

As primeiras evidências datam alguns dos esqueletos do cemitério de Lagos para o ano de 1470. Ao confirmar-se essa datação, nada impediria que alguns dos esqueletos encontrados pertencessem a alguns daqueles homens e mulheres descrito na Crônica da Guiné de Zurara.  

6 de jun de 2011

Cemitério de escravos em Portugal

Um cemitério de escravos africanos, datado do século XV, foi encontrado na cidade de Lagos, sul de Portugal, na sequência das escavações para a construção de um parque de estacionamento em setembro de 2008. O cemitério descoberto, de extraordinária importância, já é considerado o mais antigo desse tipo no mundo. Os 155 esqueletos de homens, mulheres e crianças estavam dispostos de maneira aleatório, numa lixeira que esteve ativa entre os séculos XV e XVII.

Os trabalhos de construção do parque deram, contudo, primeiro com outro cemitério: o de leprosos. Também se sabia que no local no século XV funcionava uma gafaria (hospital de leprosos), e o achado de aproximadamente 20 esqueletos, com sinais muito evidentes de lepra, venho a confirmar os textos da época. A diferença dos esqueletos africanos, os mortos pela lepra estavam sepultados de maneira ordenada. Isso porque no caso dos escravos, esses eram jogados sem nenhum cuidado cerimonial na lixeira, que funcionava, juntamente com a gafaria, na parte exterior da muralha da cidade.

Os trabalhos feitos por arqueólogos da Universidade de Évora, no primeiro semestre de 2009, constataram a existência de pelo menos quatro crânios com os dentes ritualmente moldados. Julga-se que poderá ser possível identificar a procedência desses homens, uma vez que se sabe que algumas populações da África ocidental possuíam a prática de esculpir ritualmente alguns dos seus dentes.

Vários dos esqueletos possuíam marcas de violência, como a posição das mãos indicando estarem amarrados atrás das costas. Também foi encontrado o de uma criança recém nascida juntamente ao de uma mulher provavelmente a sua mãe e que possivelmente tenham morrido no momento do parto.

2 de abr de 2011

A outra metade do céu

La Vanguardia (28/03/2011)
Por Juliet Torome

No Quênia, meu país de origem, existe um ditado popular que diz que, quando dois elefantes brigam, quem sofre é o pasto. Em nenhum outro lugar isso é mais evidente do que nos numerosos conflitos que a África tem testemunhado nos últimos 50 anos. Na República Democrática do Congo, bandos de saqueadores que se dizem defensores da liberdade, e os exércitos do governo com quem combatem, durante décadas utilizaram a violação como uma arma contra as mulheres indefesas. Mas quando se trata dos esforços para evitar uma crise como a de Ruanda, as mulheres africanas muitas vezes são deixadas de fora. Consideremos os atuais esforços da União Africana (UA) para encontrar uma solução ao impasse político pós-eleitoral na Costa do Marfim. Dos cinco líderes eleitos na reunião de cúpula da União Africana na Etiópia, para coordenar as negociações, nenhum deles era mulher. 

O que é ainda mais ofensivo para as mulheres africanas é que a UA as ignore para escolher em troca homens cujo compromisso com a democracia e os direitos humanos pode ser pior do que a de Laurent Gbagbo, o homem que se aferra à presidência da Costa do Marfim apesar de ter perdido as eleições. Dos cinco homens designados para dirigir a missão para persuadir Gbagbo a deixar o poder, somente dois ―Jakaya Kikwete, da Tanzânia, e Jacob Zuma, da África do Sul― podem-se dizer que chegaram ao poder democraticamente. Os outros três, Mohamed Ould Abdel Aziz, da Mauritânia, Idriss Déby, do Chade, e Blaise Compaore de Burkina Faso, se apoderaram do governo através de golpes, alguns deles de forma violenta. A ironia é muito mais profunda. A UA está cheia de homens que não são mais honestos do que Gbagbo. Meles Zenawi, anfitrião da reunião de cúpula, governou a Etiópia por quase 20 anos e não convenceu ninguém fora do seu círculo de amigos de que as eleições do seu país foram livres e justas. 

Nem se quer Goodluck Jonathan, da Nigéria, que lidera a Comunidade Econômica da África Ocidental (ECOWAS, na sua sigla em Inglês) e respalda a intervenção militar contra Gbagbo, pode sair ileso dessa comparação. Jonathan é presidente da Nigéria hoje porque Umaru Musa Yar Ádua, o seu falecido antecessor, chegou ao poder através daquilo que muitos consideram eleições fraudulentas. 

Enquanto a África está cheia desses homens de passado duvidoso, que aplicam "soluções africanas para os problemas africanos", como dizem, o continente não avançara na solução dos seus problemas. Eu sei que muitos dirão que o grupo de mulheres africanas reconhecidas é limitado à presidenta da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf; à Nobel da Paz Wangari Maathai; à Ngozi Okonjo-Iweala, ex-ministra de economia da Nigéria e atual vice-presidenta do Banco Mundial; à Graça Machel, ex-primeira dama de Moçambique e África do Sul, e algumas outras. Poderiam ter razão, mas qualquer uma dessas quatro mulheres seria muito mais eficaz na mediação de conflitos na África do que todos os outros presidentes dos países da UA juntos. 

O problema com a África é que os altos cargos de governo não tem as melhores soluções. Em muitos casos, os de menor escalão, ou mesmo alguém fora do governo, poderiam ser mais efetivo. Às vezes o que a África precisa é de mais sentido comum e gente que esteja disposta a deixar de lado seu orgulho e formular perguntas simples que muitos não querem enfrentar. 

Uma mulher na reunião de cúpula de Adís Abeba, poderia ter perguntado aos que chamam para a guerra, por exemplo, que explicassem como, dado o fracasso à hora de controlar as milícias armadas da Somália, da República Democrática do Congo, da Uganda e de outras partes, planejam derrotar Gbagbo. Uma mulher poderia ter recordado aos que ameaçam a Gbagbo com uma guerra que quando o conflito comece, os homens levarão a luta aos campos de batalha, deixando as mulheres para trás para que se ocupem das crianças. 

Serão as mulheres que então terão que arrumar o pouco que têm e fugir aos países vizinhos que já estão lutando para alimentar aos seus próprios filhos. E serão as mulheres que vão ser violadas, mutiladas e assassinadas, como pode ver o mundo recentemente, em Abidjan, a capital da Costa do Marfim, quando as forças de Gbagbo massacraram sete mulheres durante um protesto pacífico. 

Se as mulheres tivessem estado a cargo da UA, teriam sabido que o machismo dos homens africanos não permite que esses se sintam abalados por ameaças de conflitos violentos. Como disse Thomas Sankara, o homem ao que Compaore lhe tomou o poder em 1987 para se tornar presidente de Burkina Faso, "as mulheres levam sobre os seus ombros a outra metade do céu". Infelizmente, os homens da UA nos marginalizam, e o céu da Costa do Marfim parece querer cair outra vez. 

8 de mar de 2011

Presidente da Guiné Equatorial no carnaval do Rio

Acabei de ler no blog Diário da África, que reproduziu um texto do O Globo, da presença do presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, no desfile das escolas de samba no Rio de Janeiro.

RIO - Em sua estreia no carnaval carioca, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, presidente da Guiné Equatorial, fechou um camarote duplo para os seus convidados no setor par da Avenida Sapucaí

(...)

Eleito pela revista "Forbes" o oitavo governante mais rico do mundo, Obiang mostrou empolgação a valer quando avistou o jogador Ronaldinho Gaúcho entre a Velha Guarda da Portela:- Ele é muito bom jogador - exaltou.O camarote de Obiang é totalmente revestido de tecido vermelho, do chão ao teto. Em uma das paredes, um retrato seu emoldurado chamava a atenção de quem passava pela lateral da pista. Os 50 convidados de sua comitiva bebiam muita champanhe em taças de cristal durante os desfiles.


O texto também fala da tentativa, aparentemente falida, do filho Teodorin Obiang de comprar um iate que custaria quase três vezes o que o país gasta em educação e saúde por ano.

Lembrei-me então de um artigo que li já a algum tempo (2009) escrito pelo único deputado da oposição do país africano, Plácido Micó.

A Guiné Equatorial desde a sua independência em 1968 (era uma colônia espanhola) conheceu apenas dois presidentes. O atual, Obiang Nguema - há 31 anos no poder -, e o seu tio, Francisco Macías Nguema.

Para o oposicionista Plácido Micó, o governo anterior foi em muitos aspectos até pior do que o atual: "A sangrenta ditadura de Macías foi de um horror, de uma crueldade e destruição indescritível, arruinou economicamente o país, administrado como uma grande fazenda, e não construiu a menor instituição de Estado digna desse nome."

Obiang Nguema conta, desde uma década e meia, com a abundância de petróleo para financiar-se no poder e aumentar cada vez mais as suas contas bancárias. Até a alguns anos atrás, a estadunidense Exxon-Móbil depositava os direitos que devia pela exploração do petróleo na costa guinéu-equatoriana diretamente em contas pessoais do ditador.Chegou se ao cúmulo do Estado ter que "roubar" o presidente-ditador para pagar as sua contas.

E isso não é pouca coisa para uma país que vê 90% do seu PIB sair da exploração do petróleo.

Apesar da riqueza proveniente da exploração petrolífera e da fortuna acumulada pela família do mandatário, o país do Golfo da Guiné, que faz fronteira com Camarões ao norte, e Gabão ao sul, não possui uma única biblioteca em todo o pais, nem pública nem privada.

O deputado Plácido Micó acusa os "países de sempre" (China, Cuba, Marrocos, Coreia do Norte, o Zimbábue de Mugabe...) de dar apoio internacional à ditadura do seu país, mas também aos Estados Unidos e as suas petroleiras. E parece ser que agora também a Espanha.

Lembremos que na sua última visita ao continente africano, o ex-presidente Lula esteve na Guiné Equatorial promovendo, entro outras coisas, os interesses da Petrobras na região.
Será que promoveu o carnaval carioca também?

28 de ago de 2010

A resposta de Tanganyka ao explorador Livingstone

Durante o século XIX, inúmeros exploradores europeus e estadunidenses percorreram o continente africano, financiados muitas vezes pelos seus próprios países, com o intuito de "descobrir" e desvelar os segredos geográficos, hidrográficos, fauna, flora, religiões, culturas, línguas da África e dos seus habitantes.
Apropriar-se desse conhecimento era fundamental para sentar as bases do assalto ao continente que se iniciaria no final do século XIX e princípio do XX.

Esses exploradores acabaram por nomear rios, cataratas, lagos, relevos conhecidos pelos africanos desde tempos mais que antigos. A lógica era essa: como os africanos eram considerados incivilizados, nada mais normal esses lugares serem "batizados" pelos primeiros civilizados que aí chegassem. Como naquele famoso poema de Bertold Brecht:

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
(...)

Isso tudo vem a propósito de um encontro entre o mais conhecido desses exploradores, o também missionário escocês David Livingstone, morto em 1873, e um líder africano chamado Tkerecaloma . Esse último fora questionado pelo europeu se já tinha ouvido falar dos homens que comem gente, numa clara alusão ao pretendido canibalismo africano.

Tenho - respondeu Tkerecaloma, - mas nós sempre supomos que semelhante monstruosidade, bem como as outras, só existiam entre vós, os que andam pelo mar.

16 de mai de 2010

Ironia da História

Lá pro final do século XIX, quando os europeus se preparavam para o assalto final do território africano, umas ideias pseudocientíficas começaram a pipocar nos meios mais intelectualizados da Europa. Aos olhos de hoje, aquelas teorias não convencem mais ninguém, mas na época não só convenceram como foram defendidas por cientistas, intelectuais, políticos, jornalistas... A de que os negros (mas também indianos, indígenas) formavam uma “raça” inferior (da dos brancos, claro).

A observação do tamanho e forma dos crânios talvez tenha sido o estudo mais validado para corroborar tal teoria.

Chegado o século XX, essa “certeza” justificou as mais violentas práticas colonialistas dos europeus na África; como também serviu de base para os nazistas na busca da sua pureza ariana.

Resulta que uma recente pesquisa publicada na famosa revista científica Science, que estudou a sequência genética do homem-de-neandertal, chegou a conclusão de que os euro-asiáticos possuem até 4% de genes neandertal.

O homem-de-neandertal, como sabemos, é um dos vários hominídeos que existiram na terra, mas que não sobreviveu porque, dizem os cientistas, não era tão inteligente e adaptado como o homo sapiens, ou seja, um dos nossos.

Como diria um amigo meu: comeram poeira!

Apesar de que o homo sapiens e o homem-de-neandertal compartiram espaço e tempo, se dava como seguro que não teria havido nenhum tipo de cruze. Em outras palavras: que ninguém tinha “pegado” ninguém!

Mas parece que não foi bem assim. Não se sabe quem correu atrás de quem, mas os nossos Romeus & Julietas dos primórdios acabaram, inclusive, deixando uma prole.

Essa descoberta, na verdade, não muda nada na visão da identidade humana. Somos todos farinha do mesmo saco. Mas não pude deixar de pensar com que cara ficariam aqueles que acreditavam serem superiores só porque tinham uma pele branca, se alguém vindo do futuro, lhes contasse o fiasco em que se transformaram as suas teorias racistas. E pra sacanear, dizer-lhes baixinho no ouvido: vocês levam um “neandertal” no sangue.

9 de abr de 2010

Conflito racial na África do Sul

Por Fábio Zanini



VENTERSDORP (ÁFRICA DO SUL) – É verdade que a África do Sul escapou de implodir em uma guerra civil logo que o apartheid acabou, mas não é fato que a transição tenha se dado de maneira indolor.

O período de 1990 a 1994 foi de conflito e massacres, nos quais morreram centenas de pessoas. De um lado, uma minoria branca temerosa de perder o poder e ainda com as forças armadas na mão. Querendo a criação de uma “pátria branca”, separada dos negros.

De outro, a maioria negra, ainda sem a força das armas pesadas, mas cada vez mais assertiva e disposta a fazer valer sua superioridade numérica.

No meio, polícia e muito arame farpado.

Tudo isso parecia consignado aos livros de história. A África do Sul de 2010 ainda está longe de uma harmonia perfeita, mas avançou muito no convívio racial.

Ontem, porém, o arame farpado voltou, na cidadezinha de Ventersdorp, a duas horas e meia de viagem de Johannesburgo.

Chega-se lá por estradas vicinais sem acostamento, atravessando belas fazendas de milho e criação de gado. Quase todas de propriedade dos bôers, os fazendeiros africâners (descendentes de holandeses).

Os dois mundos, negro e branco, se encontraram em frente ao fórum da cidade, um prosaico edifício de telhado zinco verde, num pacato lugarejo com não mais do que 10 mil habitantes. Vieram fazer vigília no dia da aparição em corte dos dois acusados (negros) pelo assassinato de Eugene Terreblanche, líder de uma facção radical branca, o AWB.

O AWB já foi bastante influente, mas hoje não passa de uma relíquia, um amontoado de viúvas do apartheid. Não importa. Ontem, figuras do passado espanaram o pó de roupas e bandeiras e foram à luta.

6 de nov de 2009

Os afro-portenhos e o nascimento do tango

Por Ariel Palacios



Um relatório elaborado por Cynthia Quiroga, psicóloga colombiana (o cantor Carlos Gardel morreu em 1935 na colombiana Medellín), integrante da Universidade de Frankfurt (Alemanha, terra onde foi inventado o bandonenón) afirma que o tango eleva o desejo sexual.

A Universidade recomenda o tango para casais com problemas de baixa testosterona
Sexo à parte, o tango - ritmo musical do rio da Prata (pois é praticado em ambas margens, a uruguaia e a argentina) - foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, no mês passado.

(...)

Na Argentina (no Uruguai a História é outra), mais do que 'argentino', o tango é portenho, já que o interior da Argentina seria melhor representado por outros ritmos, como o chamamé, o malambo e a zamba.