13 de jun de 2011

Cemitério de escravos em Portugal (II)

Os escravos negros circularam pelo continente europeu, juntamente com escravos "mouros" (berberes do norte da África), árabes e da própria Europa. Mas foi em 1444 que, justamente em Lagos, desembarcou o primeiro carregamento de escravos trazido pelas caravelas portuguesas, dando início assim ao moderno tráfico de escravos que iria, nos séculos seguintes, dominar o Atlântico. A partir de então, e até o século XVII, a cidade foi um importante ponto de desembarque do tráfico.

A famosa Crônica da Guiné de Gomes Eanes Zurara, principal documento escrito da chegada desses primeiros escravos a Portugal em 1444, deixa-nos um testemunho do impacto daquele momento; tanto para os africanos desembarcados como para os portugueses que assistiram à divisão feita em praça pública das "peças" trazidas da África.

No dia 08 de agosta daquele ano, muitos campesinos da região do Algarve somaram-se aos inúmeros curiosos de Lagos para ver desembarcarem e repartirem aqueles homens de "razoada brancura", outros "menos brancos" e outros "tão negros como Etiópios". No total eram aproximadamente 230 escravos que "tinham as caras baixas e os rostos lavados com lágrimas, olhando uns contra os outros; outros estavam gemendo mui dolorosamente, esguardando a altura dos céus, firmando os olhos em eles, bradando altamente como se pedissem socorro ao Pai da Natureza; outros feriam seu rosto com suas palmas, lançando-se estendidos em meio do chão; outros faziam suas lamentações em maneira de canto, segundo o costume da sua terra, aos quais (posto que as palavras da linguagem aos nossos pudesse ser entendida) bem correspondiam ao grau de sua tristeza."

Zurara ainda descreve como separavam "os filhos dos pais; e as mulheres, dos maridos; e os irmãos, uns dos outros. A amigos nem a parentes, não se guardava nenhuma lei; somente, cada um caía onde a sorte o levava."

As primeiras evidências datam alguns dos esqueletos do cemitério de Lagos para o ano de 1470. Ao confirmar-se essa datação, nada impediria que alguns dos esqueletos encontrados pertencessem a alguns daqueles homens e mulheres descrito na Crônica da Guiné de Zurara.  

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