7 de abr de 2012

Tombuctu: a jóia africana que está em risco de desaparecer

Público (sábado, 07/04/2012)

O património de Tombuctu, no Mali, pode estar em risco, depois da ocupação pelos rebeldes. UNESCO lançou um alerta e os especialistas estão apreensivos, embora digam que a população sabe o valor do que ali tem

Em Tombuctu, no Norte do Mali, o mito impera, como sempre aconteceu. Sem se saber bem como nem porquê, a História transformou-a numa cidade especial. De uma pequena povoação perdida no deserto do Sara, Tombuctu tornou-se a jóia africana, a cidade do ouro e a capital intelectual e espiritual de África. Um oásis no Sara, que ao longo dos séculos tem vindo a despertar a atenção do mundo. Mas entre histórias, mitos e mistérios, o que se vive hoje na cidade é real. Ocupada há cerca de uma semana pelos rebeldes tuaregues e por islamitas infiltrados, o medo e a incerteza apoderaram-se de Tombuctu. Em tempos de conflito, é preciso salvar a História, e quem a conta é o seu património, agora ameaçado.




Os confrontos no Mali já começaram há cerca de duas semanas, mas foi com a luta a chegar a Tombuctu que os receios cresceram e, consequentemente, aumentou a pressão da comunidade internacional. Tombuctu (também chamada de Timbuktu) é cidade Património Mundial da UNESCO desde 1988 e tem por isso de ser protegida. Foi esta a mensagem que a directora-geral da UNESCO, Irina Bokova, passou na segunda-feira e voltou a repetir na quinta, alertando que, acima de qualquer guerra de interesses, é urgente que “as maravilhas arquitectónicas em terra de Tombuctu” sejam preservadas e não sofram quaisquer danos por causa dos conflitos no país. Na memória ainda está o episódio de 2001, quando os taliban bombardearam no Afeganistão um dos maiores complexos budistas, destruindo os budas de Bamiyan.

“Não acredito que os rebeldes venham a destruir o património de Tombuctu. Como muçulmanos que são, não têm motivos nem nada a ganhar com a destruição daqueles monumentos e dos manuscritos islâmicos”, disse ao PÚBLICO Timothy Insoll, arqueólogo e professor na Universidade de Manchester, que por várias ocasiões trabalhou no local, não escamoteando no entanto que o património pode acabar por ser atingido se os conflitos continuarem. Mas que património e que história se escondem nesta cidade africana, descoberta quase por acaso no século XI por um grupo de tuaregues que ao atravessar o deserto procurava apenas um bom pasto para os seus animais?

Capital espiritual

Embora existam testemunhos históricos da cidade desde o século V, foi depois de estes tuaregues a terem fundado que Tombuctu entrou no mapa africano, assegurando desde logo uma posição estratégica nas trocas comerciais. Perto do rio Níger e às portas do deserto do Sara, Tombuctu era o ponto de encontro perfeito para os negociantes do Norte e do Sul. Palco de grandes negócios, por onde o ouro sempre passou, foi assim que nasceu a fama de Tombuctu como uma terra rica, atraindo cada vez mais africanos, que acabaram por se fixar na cidade, contribuindo assim para o seu crescimento intelectual e religioso. Nos séculos XV e XVI era já considerada a capital espiritual e um centro de propagação do islão em África. Diz um ditado dessa época que “o sal vem do Norte, o ouro do Sul, mas a palavra de Deus e os seus tesouros só se encontram em Tombuctu”. A fama da riqueza chegou ao Ocidente, mas só no século XIX, quando surgiu o primeiro relato da cidade feito por um europeu, é que na Europa se desmistificou a ideia que se tinha de Tombuctu. Esta tornara-se uma cidade culta, mas não era rica em ouro.

“Naquela altura, a cidade tinha a maior universidade da África Subsariana com mais de 25 mil estudantes”, contou ao PÚBLICO, por email, o maliano Lassana Cissé, do comité científico do ICOMOS (Conselho Internacional dos Monumentos e dos Sítios) e responsável pelo património mundial no Mali, explicando que assim se reuniu ao longo dos séculos “uma rara fonte escrita para o conhecimento de África” em todas as áreas. Ao mesmo tempo e como consequência foram construídos templos de culto, entre os quais se destacam ainda hoje as três grandes mesquitas de Djingareyber, Sankoré e Sidi Yahia, os 16 cemitérios e os mausoléus, assim como as bibliotecas que guardam milhares de manuscritos, alguns datados ainda da era pré-islâmica.

A arquitecta Maria Fernandes, especialista do ICOMOS Portugal, destaca a construção típica dos monumentos, feita de adobe, à base de lama e madeira, por isso frágil e requerendo cuidados redobrados. “Estes monumentos têm um valor histórico importantíssimo e não se podem perder”, afirmou a especialista, explicando que as condições climáticas e as areias do deserto já por si são uma causa de desgaste. “Sendo palco de um conflito, aumentam os riscos de destruição”, afirma.

Responsáveis incontactáveis

Até agora ainda não existem registos de quaisquer danos, mas também pouco se sabe sobre o que se passa na cidade. Ao PÚBLICO, o gabinete da UNESCO no Mali, que fica na capital Bamako, disse não ter ainda informações sobre a situação, revelando não conseguir nem contactar os responsáveis pelo património em Tombuctu.

“A situação é complicada, as pessoas não se sentem seguras, fala-se em pilhagens e violência”, contou ao telefone a italiana Elisa Roth, a trabalhar em Bamako numa ONG, garantindo que a última coisa em que as pessoas pensam neste momento é no património. “Existem outras preocupações mais importantes, como conseguir comida.”

Situação que preocupa Lassana Cissé. “Existem de facto razões para nos preocuparmos. Num momento de guerra, a destruição do património edificado e do enorme tesouro que são os manuscritos é muito possível”, assegura, acrescentando que tem estado em contacto com a UNESCO, que segundo Manuela Galhardo, secretária executiva da Comissão Nacional da organização, já accionou todos os meios. “A Convenção de 1972 sobre o património mundial por toda a visibilidade e credibilidade que tem é já um instrumento poderoso da UNESCO”, explicou ao PÚBLICO a responsável, lembrando que “todos os malianos, que estão a combater, seja de que lado for, estão sob o olhar da comunidade internacional e por isso se destruírem alguma coisa ficarão com esse peso e responsabilidade”.

Mas Maurício Abreu, fotógrafo que em 2006 esteve em Tombuctu, acredita que nada de grave possa acontecer. “As pessoas têm consciência da riqueza daquele património e sabem como preservá-lo”, disse, contando que quando esteve na cidade todos os monumentos estavam muito bem preservados. “Os próprios manuscritos têm passado de geração em geração, sempre com todos os cuidados, porque os malianos sabem a importância que aqueles documentos têm para a História.” Teoria também defendida pelo professor de Manchester, que destaca ainda a importância de todo o património para o turismo. “Embora não existam assim tantos turistas, as pessoas de Tombuctu estão conscientes do impacto financeiro”, acrescenta, defendendo que até que a situação se resolva tudo dependerá da população local. “Com o colapso do Governo, quem mais poderá manter e guardar os monumentos?”, questiona Timothy Insoll, esperando que seja qual for o desfecho dos acontecimentos a jóia africana não desapareça.

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